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Por que soldados da Guerra Civil Americana brilhavam no escuro ?

Na primavera de 1862, um ano após a Guerra Civil Americana ter começado, o  Major General Ulysses S. Grant avançara profundamente em território confederado, ao longo do rio Tennessee. No início de abril, ele estava acampado em Pittsburg Landing, perto de  Shiloh, Tennessee, esperando as tropas sob o comando do major-general Don Carlos Buell, que  se juntariam com as dele.

Na manhã do dia 06 de abril, as tropas confederadas acampadas na vizinha Corinto, Mississippi, lançaram uma ofensiva surpresa contra as tropas de Grant, na esperança de derrotá-las antes do segundo exército chegar.

Entretanto, os homens de Grant, reforçados pelas primeiras chegadas de Ohio, conseguiram resistir e estabeleceram uma linha de frente ancorada com artilharia.  A luta continuou até depois do anoitecer. Na manhã seguinte, toda a força de Ohio havia chegado, dando a União uma vantagem sobre os confederados em mais de 10.000 soldados.

Soldados confederados  em Corinto, na véspera da batalha de Shiloh.


As tropas da União  forçaram os confederados a recuar. Os comandantes do sul, percebendo que não poderiam vencer, se retiraram para Corinto, até outra ofensiva em agosto (para uma explicação mais detalhada da batalha, veja esta história animada ).

Tudo dito, o combate na Batalha de Shiloh deixou mais de 16 mil soldados feridos e mais de 3.000 mortos. Nem os médicos federais,  nem os confederados, estavam preparados para tamanha carnificina.

Como se os ferimentos à bala e à baioneta não fossem ruins o suficiente, os soldados da época também eram propensos a infecções. Feridas contaminadas por estilhaços ou sujeira tornavam-se quentes e úmidos refúgios para as bactérias. Depois de meses de marcha e comendo somente rações de campo na frente de batalha, o sistema imunológico de muitos soldados estava enfraquecido e não podia combater as infecções por conta própria. Os médicos do exército não podiam  fazer muito, micro-organismos não eram bem estudados, a teoria dos germes como causadores de doenças e os antibióticos ainda estavam a alguns anos de distância. Muitos soldados morreram de infecções que a medicina moderna seria capaz de curar com facilidade.

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Um ponto brilhante

Muitos dos soldados em Shiloh, ficaram na lama por dois dias e noites chuvosos, a espera de atendimento médico. No crepúsculo da primeira noite, alguns deles notaram algo muito estranho: as suas feridas  brilhavam, lançando uma luz fraca na escuridão. Ainda mais estranho: quando as tropas foram transferidas para hospitais de campanha, aqueles cujas feridas brilhavam, tiveram uma sobrevida melhor e  suas feridas curaram mais rapidamente em relação aos  seus irmãos de armas sem o tal  brilho. O efeito aparentemente protetor da luz misteriosa lhe valeu o apelido de "Brilho dos Anjos".

Em 2001, quase 140 anos após a batalha, Bill Martin, na época com 17 anos, visitou o campo da Batalha de Shiloh com sua família. Quando ele ouviu falar sobre as feridas brilhantes, perguntou à sua mãe sobre o assunto,  a mãe de Bill era  microbiologista do Serviço de Pesquisa Agrícola dos Estados Unidos e havia estudado sobre bactérias luminescentes que viviam no solo. Seguindo a tradição do ensino americano, a mãe de Bill sugeriu ao filho que ele fizesse uma experiência para descobrir se havia alguma relação entre as bactérias do solo e o estranho  brilho dos combatentes de Shiloh. Bill, prontamente aceitou a sugestão.

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Ele e seu amigo, Jon Curtis, pesquisaram sobre as bactérias e as condições do clima e do solo durante a batalha de Shiloh. Eles descobriram que as Photorhabdus luminescens, as bactérias que a mãe de Bill havia estudado e que ele achava que poderiam ter algo a ver com as feridas brilhantes, vivem nas vísceras de vermes parasitas chamados nematoides e que os dois compartilham um estranho ciclo de vida.

Nematoides caçam insetos no solo ou nas folhas das plantas, entram em seus corpos e se fixam nos vasos sanguíneos. Quando um nematoide infecta um inseto, a  P. luminescens é liberada no fluxo de sangue da vítima. Após a sua liberação, as bactérias, que são bioluminescentes com um suave brilho azul, começam a produzir uma série de toxinas para matar o inseto hospedeiro e expulsar  ou aniquilar todos os outros micro-organismos já dentro dele. A bactéria também segrega enzimas responsáveis ​​em liquefazer o inseto  infectado, convertendo-o  em nutrientes que servirão de alimento para elas e para os nematoides. Quando os vermes comem, levam  junto para dentro de si as bactérias e o ciclo recomeça. Assim, a P. luminescens e seu parceiro nematoide se alimentam, crescem e multiplicam sem grandes reveses.

Uma bactéria angelical

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Nos registros históricos da batalha, Bill e Jon constataram que as condições climáticas e de solo eram propícias, tanto para a P.luminescens quanto para seus parceiros nematoides. Seus experimentos de laboratório, no entanto, mostraram que as bactérias  não poderiam viver à temperatura do corpo humano, o que tornava as feridas dos soldados um ambiente inóspito para elas. Pesquisando mais, eles descobriram que a primavera no Tennesse é bem amena. As temperaturas noturnas no início de abril teriam sido baixas o suficiente para que os soldados que estavam lá, na chuva por dois dias, chegassem próximos à hipotermia, reduzindo a temperatura corporal e dando a P. luminescens um lar agradável.

Com base na evidência da presença da  P.luminescens em Shiloh e nos relatórios do brilho estranho, os estudantes concluíram que as bactérias, juntamente com os nematoides, entraram nas  feridas dos soldados. Isto não só transformou as  feridas deles em luzes na noite, mas pode, também,  ter salvo suas vidas. O coquetel químico que a P. luminescens usa para eliminar seus concorrentes, provavelmente ajudou a matar outros patógenos que poderiam ter infectado as feridas dos soldados. Uma vez que nem a P. luminescens, nem as espécies de nematoides em que ela se hospeda são muito perigosos aos seres humanos, o sistema imunológico  dos soldados não teve dificuldade em expulsar as invasoras brilhantes (o que não quer dizer que você pode se auto-medicar com bactérias P. luminescens; infecções podem ocorrer e resultam em  úlceras bastante desagradáveis). Portanto, não foram anjos, os responsáveis pela cura dos soldados, mas seres bem abaixo na hierarquia da criação: reles bactérias do solo.

Adaptado de Mentafloss