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O ritual Kukeri ou o sinistro Dia dos Monstros da Bulgária

Sob o céu escurecido por nuvens espessas, eles surgem nas ruas ao som tétrico de sinos. Em breve, eles entrarão nas casas dos moradores, pela força, se preciso for. As faces deles são uma mistura terrível de presas, chifres retorcidos e  grandes olhos arregalados. Eles estão vestidos em  peles de animais ou outros materiais grossos e  sinetas  em seus cintos tilintam, aumentando a teatralidade sinistra das criaturas. Esses monstros não falam, somente caminham e dançam, armados com várias armas. O ritual remonta a milênios, para uma época em que deuses pagãos eram adorados e espíritos malignos considerados ameaça séria.


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A cada ano, em um dia após o Ano Novo e antes da Quaresma, o festival de Kukeri é comemorado na Bulgária. É uma tradição herdada dos trácios antigos e das festividades a Dionísio, o deus trácio e grego associado ao vinho, à fertilidade e ao renascimento. O festival está repleto de simbolismo místico, mergulhado  em uma tradição que representa o ciclo da vida, morte e renascimento.

Os trajes do Kukeri, como as figuras monstruosas são conhecidas, são elaborados, habitualmente usados pelos jovens da aldeia, geralmente solteiros ou recém-casados. Antigamente feitas de  peles de cabras sacrificadas, atualmente as fantasias dos participantes são feitas de vários materiais, às vezes  de simples pano para tapetes, dependendo dos costumes locais. Os Kukeris também carregam consigo tacos de madeira, espadas e cetros conhecidos como 'thyrsus' - emblemas da fertilidade que remontam ao culto do deus Dionísio.

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As assustadoras máscaras de madeira (representando originalmente a cabra) usadas pelos Kukeris, muitas vezes têm maxilas articuladas que podem ser  abertas e fechadas, bem como chifres, que podem ser reais ou fabricados de madeira. Às vezes, essas máscaras tem dois lados, um representando o bem e o outro o mal, para refletir o equilíbrio dessas forças na natureza. Às máscaras é creditado o poder de afastar espíritos malignos, e, uma vez vestidas, não podem ser tiradas durante o resto do dia. Um grande desafio, considerando o quão pesadas elas devem ser!

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O Kukeri também pode adicionar vários outros artigos simbólicos em seus chifres como borlas, hera (que é sagrada para Dionísio), manjericão (a erva que significa o amor em algumas culturas), bem como pérolas e fitas. No passado, ser Kukeri era estritamente reservado para homens jovens, ligados pela idade ao  ritual do amadurecimento. Nestes dias mais liberais, no entanto, homens e mulheres de todas as idades podem participar, desde que possam aguentar  o peso dos pesados trajes por um dia inteiro.

No início do festival, os participantes se reúnem para escolher um líder que vai desempenhar o papel mais importante nas cerimônias. O traje deste Kukeri é feito dos couros de sete animais, feras das quais ele supostamente recebe as forças. Diferente de seus companheiros, ele pinta a cara de preto em vez de usar uma máscara e os chifres são presos direto na cabeça dele. O falo de madeira pendurado em seu cinto não deixa dúvidas quanto ao poderoso simbolismo subjacente a este festival: a fertilidade.

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Uma vez que estão todos vestidos e prontos, o Kukeris iniciam  a procissão ao som de muita música e aplausos. Eles não passeiam simplesmente, mas devem andar em um estilo rítmico particular, ao mesmo tempo que tocam os sinos presos nas cinturas. Apesar do enorme barulho que  acompanha o desfile dos Kukeris, eles mesmos são proibidos de falar e de revelar suas identidades por trás das máscaras gigantes.

Durante o festival, o Kukeri líder  executará vários rituais para dar saúde, fertilidade e boa sorte para o povo de sua aldeia. Isso inclui visitar todas casas do vilarejo, onde lhe será oferecido  pão e  vinho, símbolos de sangue e carne sacrificial mesmo em tempos pré-cristãos. O Kukeri em seguida, executará vários  ritos, inclusive se esfregando no chão da casa  visitada. No percurso através da vila, ele e os outros Kukeris encenarão duelos e outras demonstrações de sua masculinidade, incluindo atos sexuais! Ainda assim, tudo isso serve para abençoar as aldeias com  prosperidade e, claro, com fertilidade.

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Após toda a comunidade ter sido visitada, vem a  peça final do festival, uma encenação de tons sombrios. O Kukeri chefe é amarrado a um arado, invenção muitas vezes creditada a Dionísio, e finge morrer enquanto o arado é puxado. As mulheres da aldeia, em seguida, polvilham com sementes o corpo de seu líder, levando-o a saltar e a tocar os sinos, uma clara alusão ao renascimento. Depois, as peles dos sete animais que ele usou durante a festividade são enterradas em sete lugares diferentes para garantir o futuro da fertilidade do solo e o falo preso ao seu cinto é dado a um homem sem filhos, por razões semelhantes.

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O festiva Kukeri como é comemorado na Bulgária é  remanescente de uma tradição que também já foi muito popular no norte da Grécia. Atualmente, várias versões do festival existem na Sérvia, Romênia, Espanha e Itália, mas a búlgara é a mais conhecida. Nas aldeias de todo o país, variações regionais são adicionadas ao processo, contudo, o significado essencial permanece o mesmo.

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Proibido pelos comunistas quando eles estavam no poder na Bulgária, o festival, no entanto, sobreviveu e continua a atrair multidões para suas performances. O mais popular deles é chamado de Surva International Festival of Masquerade Games, [ ver vídeo  ] e é realizado anualmente na cidade de Pernik. Pessoas de todo o mundo vão para lá, a fim de assistir e participar. O festival em Pernik conta com diferentes grupos de teatro de toda a Bulgária, Europa e até da Ásia e da África.

Em um mundo onde os rituais mágicos e místicos muitas vezes são desprezados, a tradição dos Kukeris nos leva ao passado esotérico da humanidade. E, apesar da  atmosfera carnavalesca do  festival nos dias de hoje, ele também nos lembra, que no fundo, as nossas esperanças e medos não mudaram tanto assim, afinal de contas!