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O japonês que salvou seis mil judeus das garras nazistas

Chiune Sugihara foi um diplomata japonês que serviu como cônsul do Império Japonês na Lituânia, durante a Segunda Guerra Mundial. Aproveitando-se da hierarquia do cargo e mesmo arriscando sua carreira e a segurança de sua família, ele pode ajudar milhares de judeus a deixar a Europa, concedendo-lhes vistos de trânsito para que eles pudessem viajar para o Japão. Aqui a história desse notável homem.

Sugihara nasceu em 1 de Janeiro de 1900 em Yaotsu, uma área rural da região de Chubu, no Japão, em uma família de classe média. Seu pai era um médico respeitado e sua mãe, descendente da classe samurai. Embora o pai desejasse que ele estudasse medicina, Sugihara seguiu sua própria vocação e ingressou na Universidade Waseda para  estudar Língua e Literatura Inglesa, formando-se em 1919. Pouco tempo depois, ele passou em um exame para uma bolsa de estudos no estrangeiro patrocinada pelo Ministério das Relações Exteriores. O Ministério o recrutou e o designou para Harbin, na China, onde ele também estudou as línguas russa e alemã, que lhe ajudaram a reforçar a carreira diplomática, e mais tarde, a que se tornasse delegado do Japão para assuntos soviéticos.

Tempos depois, Sugihara recebeu o cargo de Vice-Ministro dos Negócios Estrangeiros na Manchúria, cargo que desempenhou com dignidade, recusando-se em concordar com o tratamento cruel dado pelos japoneses à população chinesa. Dessa maneira, Sugihara mostrou ser uma exceção no Corpo Diplomático Imperial do Japão e um japonês diferente de qualquer outro daquela época. Sugihara Chiune preferiu seguir sua consciência e viver de acordo com suas próprias convicções morais. Quando voltou para o Japão, ele se casou com Kikuchi Yukiko, e logo depois, em 1938, foi enviado à representação diplomática japonesa em Helsinque, na Finlândia.

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Em março de 1939, Chiune Sugihara foi enviado para Kaunas para abrir o serviço consular. Kaunas era a capital temporária da Lituânia na época, estrategicamente localizada entre a Alemanha nazista e a União Soviética.

Chiune Sugihara estava se adaptando em sua nova função diplomática, quando o exército nazista invadiu a Polônia em setembro de 1939. O resultado foi uma onda de judeus poloneses que decidiram deixar seu país e mudar-se para a vizinha Lituânia, até então neutra no conflito. Com eles vieram as histórias arrepiantes das atrocidades alemãs contra a população judaica. Os que escaparam,  fugiram sem posses ou dinheiro, por isso a população judaica da Lituânia fez todo o possível para ajudá-los com dinheiro, roupas e moradia.

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Judeus sendo revistados por nazistas em Varsóvia, capital da Polônia

Antes da guerra, a população de Kaunas era de 120.000 habitantes, um quarto dos quais eram judeus. A Lituânia até então, tinha sido um enclave de paz e prosperidade para o povo israelita. A maioria dos judeus lituanos não sabiam do risco que corriam e minimizavam o que estava acontecendo na Polônia, embora os próprios refugiados poloneses alertassem que, do outro lado da fronteira, os judeus estavam sendo mortos aos milhares. Contudo, algo assim, em pleno século XX era quase impossível de se acreditar, e os judeus lituanos continuaram a levar a vida normalmente.

As coisas começaram a mudar em meados de junho de 1940, quando os soviéticos invadiram a Lituânia. Agora era tarde demais para deixar o país. Ironicamente, os soviéticos deram permissão para sair somente aos judeus que tinham vindo da Polônia.

Em 1940, a maioria da Europa Ocidental estava sob o poder dos nazistas, com exceção da Grã-Bretanha. O resto do mundo era supostamente livre, mas a maioria dos países colocava obstáculos à imigração de refugiados judeus, e nem é preciso mencionar o perigo que eles corriam em qualquer lugar da Europa ocupada. Os judeus poloneses tinham que partir. Eles se tornaram párias.

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O antigo consulado japonês em Kaunas, na Lituânia

Em meio a esta terrível situação diplomática, Chiune Sugihara de repente se tornou parte fundamental de um desesperado plano de sobrevivência. O destino de milhares de pessoas dependia dele.

Logo, começaram a chegar as notícias de que o exército alemão avançava rapidamente para o leste, em direção a Lituânia. Em julho de 1940, as autoridades soviéticas deram instruções a todas as embaixadas estrangeiras, que para a própria segurança, abandonassem Kaunas. Quase todos os consulados fecharam e seus diplomatas deixaram a Lituânia de imediato, porém, Sugihara solicitou a permanência no país. Foi lhe dada uma permissão de 20 dias de estadia.

Hitler tecia sua teia ao redor da Europa Oriental e o tempo dos refugiados em Kaunas diminuía a passos largos. Foi então que alguns dos refugiados poloneses vieram com um plano, a última chance de escaparem dos nazistas com vida. Eles descobriram que não era necessário o visto para viajar para as possessões holandesas no Caribe: Curaçao e Guiana Holandesa. Além disso, o cônsul da Holanda, Jan Zwartendijk, estava disposto a selar o passaporte com o visto de entrada. Mesmo com o passaporte carimbado pelo cônsul holandês, os judeus ainda tinham um grande problema. Naquele tempo, obviamente, não havia voos diretos para o Caribe. Os refugiados tinham que deixar a Lituânia passando pela União Soviética. Mais uma vez, a  sorte parecia sorrir, pois o cônsul soviético simpatizava com  eles e concordou em deixá-los passar, mas sob uma condição: além do visto holandês, eles também deveriam obter um visto de trânsito japonês, porque, obrigatoriamente, eles teriam que passar pelo Japão, a caminho das  ilhas holandesas.

Certa manhã, no final de julho de 1940, Chiune Sugihara e sua família acordaram devido ao barulho de uma multidão de judeus poloneses, reunidos na frente do consulado japonês. Os refugiados sabiam que só tinham uma chance. Somente se o consulado japonês lhes desse vistos de trânsito para atravessar o seu país, os judeus conseguiriam a permissão para viajar através da União Soviética. Chiune Sugihara ficou comovido pela situação e queria ajudar, mas não tinha autoridade para emitir tal número de vistos sem a autorização do Ministério dos Negócios Estrangeiros, em Tóquio. Ele telegrafou ao seu governo em três ocasiões, solicitando a liberação dos vistos, mas Tóquio categoricamente negava. Os Japão não queria receber os refugiados judeus porque isso iria contrariar um poderoso aliado: Hitler.

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Judeus poloneses em frente ao consulado japonês em Kaunas


Depois das contínuas negativas dos seus superiores, o diplomata japonês discutiu a situação com sua esposa. Era preciso tomar uma decisão difícil. Ele era acima de tudo um homem criado sob a rígida disciplina tradicional dos japoneses. Ele sabia que como diplomata,  estava obrigado a obedecer as ordens do império japonês, na verdade, a obediência ao seu imperador, era uma virtude que tinha sido incutida  no seu coração ao longo de toda a sua vida.  Sugihara sabia que se desafiasse as ordens de seu governo, ele poderia ser demitido, desonrado, e, certamente, seria o fim de sua carreira diplomática. Tal situação, tornaria difícil sustentar a família no futuro, mas no final, o cônsul resolveu fazer o que sua consciência dizia ser o correto. Ele decidiu ajudar os milhares de refugiados,  assinando os vistos de entrada no Japão.

Durante 29 dias, a partir de 31 julho até 28 agosto de 1940, Chiune e sua esposa Yukiko, se dedicaram a assinar os vistos, todos redigidos à mão. Hora após hora, dia após dia, durante aquelas quatro semanas, eles redigiram, assinaram  e selaram uma média diária de 300 vistos. O trabalho foi tão intenso, que no final do dia, Yukiko precisava massagear as mãos cansadas do marido. Nem sequer paravam para comer, não querendo deixar todas aquelas pessoas em pé dia e noite em frente ao consulado.

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Chiune Sugihara com Yukiko, sua esposa

Apesar de toda a boa vontade do jovem cônsul, alguns judeus estavam tão desesperados, que começaram a pular a cerca para entrar no consulado. Alguns deles se ajoelhavam para beijar os pés de Sugihara, implorando por um visto, gesto que tocou profundamente  o diplomata. O fato de um ser humano estar disposto a lhe beijar os pés para salvar a  vida e a de sua família, revelava o quão angustiadas estavam aquelas pessoas. Naquele momento, Sugihara teve certeza de que estava fazendo a coisa certa. No final de agosto de 1940 já tinham sido emitidos pelo menos seis mil vistos, até que os soviéticos obrigaram Sugihara a fechar o consulado e deixar a Lituânia.

Os refugiados judeus que obtiveram os vistos de Sugihara, foram de trem para Moscou, em seguida, tomaram outro trem e viajando pela Transiberiana, chegaram à cidade portuária de Vladivostok, que fica de frente para a costa japonesa. De lá, a maioria deles partiu para Kobe, no Japão. Depois de ficarem em Kobe por um tempo, eles foram transferidos para Xangai, na China. Milhares de judeus poloneses que estavam lá graças aos vistos do cônsul japonês, sobreviveram sob a proteção do governo japonês em Xangai.

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Um dos vistos emitidos por Sugihara


Apesar da desobediência, o governo japonês sabia que as habilidades diplomáticas de  Sugihara seriam úteis durante o conflito, razão pela qual durante esse tempo ele não foi removido do cargo, mas em 1945, quando a guerra terminou, automaticamente Sugihara foi dispensado do serviço diplomático. Toda a sua carreira  de longos anos foi esquecida. O agora ex-cônsul tinha de recomeçar do zero. Para sustentar a família, ele começou a vender lâmpadas de porta em porta, e, às vezes, fazia trabalhos como tradutor de tempo parcial. Dada a dificuldade encontrada no Japão,  Sugihara mudou-se para a União Soviética, imaginando que lá,  seu conhecimento de outras línguas seria melhor usado. Foi mais um desafio, pois, sem sua família, ele viajou para terras soviéticas em busca de emprego. Nas duas últimas décadas da vida, Sugihara trabalhou como gerente de exportação em Moscou.

Em 1968, Jehoshua Nishri, um membro da embaixada israelense em Tóquio e um dos beneficiários dos vistos de Sugihara, conseguiu finalmente localizá-lo. Nishri era um adolescente em 1940, quando  recebera o visto do cônsul japonês.

Os refugiados que sobreviveram graças a compaixão de Sugihara, entraram com uma petição para inclusão do cônsul no Museu Yad Vashem. Em 1985, Chiune Sugihara foi nomeado " Justo entre as Nações ", a mais alta distinção concedida pelo governo de Israel a cidadãos de outros países que ajudaram judeus durante o Holocausto. Sugihara estava muito doente para viajar para Israel, de modo que sua esposa e filho concordaram em participar da homenagem em seu nome. O ex-cônsul e sua família receberam a cidadania israelense perpétua. Sugihara morreu no ano seguinte, em 31 de julho de 1986.

Apesar da publicidade dada por Israel e por outras nações, Sugihara permaneceu um desconhecido em seu país. Somente quando uma grande delegação judaica de todo o mundo, incluindo o embaixador de Israel no Japão, compareceu ao funeral dele, foi que os japoneses se deram conta da grandeza do cônsul Chiune Sugihara.

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