Onze segundos - a tragédia de um brasileiro

A história a seguir, contada em versos, é baseada em fatos reais. É o drama de um brasileiro, é a tragédia de todos nós como um povo. É a triste realidade da nossa nação, que abandona os seus jovens sem lhes dar uma chance de se tornarem campeões.

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Onze segundos

João da Silva
Vulgo João Ligeiro
Filho varonil
Do solo brasileiro
Meninos eu vi, não invento
João era, veloz como o vento
Na escola corria
Todo santo dia
Os 100 metros rasos
Em profundos
Onze segundos
Cronometrados a mão
Correndo descalço
Em uma pista de chão

Noutro país, noutra nação
Onde o livro, a merenda
Não sejam oferendas
No altar da corrupção
Noutro reino, noutra fidalguia
Onde dias melhores
Não sejam utopia
João, um rapaz pobre
Se tornaria atleta nobre
Mas não aqui, aqui não
Nesta terra indecente
Que devora a própria gente
João seguiu um caminho diferente

Em casa o colapso familiar
Na rua o Estado a lhe negar
A chance de ser campeão
Sozinho na longa jornada
Entre a cruz e a espada
João parou de treinar
A fim de trabalhar
Engraxate
Verdureiro
Servente
Aprendiz de pedreiro
Para ajudar a mãe doente
E o pai cachaceiro
A cada dia, João sentia
Que morria o João Ligeiro

Meninos prestem atenção
Quando no coração
Na alma, na mente
Um homem sente
Que está morto
Sem futuro
No escuro
Sepultado
Sem chances de ser ressuscitado
Ele enlouquece
Por dentro apodrece
Ele fica desesperado

João da Silva
Vulgo João Ligeiro
Filho dessa mãe gentil
Rejeitado pela Pátria que o pariu
Tornou-se ladrão, viciado
Casqueiro
Mais um pária brasileiro

O desfecho desse drama
É comum, é banal
Tem reprise todo dia
Em qualquer banca de jornal
Numa certa tarde de verão
Quando recebeu voz de prisão
Ao invés de se render
João decidiu correr
Correr como nos velhos tempos
Veloz como o vento
100 metros rasos
Em profundos
Onze segundos

Entretando, contudo, porém
As balas de um fuzil
São velozes também
Um estampido
Um gemido
Um corpo caído no calçadão
Assim morreu João
De candidato a campeão
A um condenado
Baleado
Sem direito à redenção

Meninos prestem atenção
Na fria ironia
Na torpe contradição
A turba ficou olhando
João agonizando
Estirado no chão
Na frente de um estádio
Um estádio em construção

Onze segundos - a tragédia de um brasileiro Onze segundos - a tragédia de um brasileiro Reviewed by Bento Santiago on julho 30, 2016 Rating: 5
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