Grandes momentos olímpicos - Os Panteras Negras

Um protesto silencioso de dois atletas norte-americanos contra a discriminação racial nos Estados unidos marcou os Jogos Olímpicos da Cidade do México. Em 17 de outubro de 1968, Tommie Smith e John Carlos, respectivamente medalhistas de ouro e bronze nos 200 metros rasos, de luvas negras e punhos cerrados ao alto, permaneceram com as cabeças inclinadas durante a execução do hino nacional do seu país.

O gesto remetia aos Panteras Negras, partido fundado em 1966 que defendia o armamento dos negros como forma de defesa, além de lutar por indenizações pelo período da escravidão.

John_Carlos,_Tommie_Smith,_Peter_Norman_1968
Colegas da equipe de atletismo na Universidade da San José, na Califórnia, Smith e Carlos cogitarm não participar dos Jogos, por sugestão do amigo, o sociólogo Harry Edwards. O grupo de Edwards, batizado de Projeto Olímpico para os Direitos Humanos, ganhara o apoio de esportistas e líderes dos direitos civis, mas o boicote não aconteceu. Contudo, inspirados pelas palavras do sociólogo, os corredores planejaram a manifestação.

Na cerimônia, Smith ergueu o braço direito para representar o poder negro americano, enquanto que Carlos levantava o esquerdo, simbolizando a unidade da raça. Ao lado dos dois, o ganhador da prata, o australiano Peter Norman, também participou da manifestação, usando o símbolo do movimento de Edwards em seu uniforme.

Mas naquele conturbado final dos anos 1960, nem todos aprovaram o ato - os competidores foram vaiados e, em poucas horas, foram condenados pelo Comitê Olímpico Internacional, que proíbe os participantes dos Jogos Olímpicos de usar símbolos relacionados a qualquer facção ou movimento político.

”Sabíamos que o que íamos fazer era muito maior do que qualquer façanha atlética”, disse Carlos em entrevista coletiva após a solenidade. Já Smith ponderou sobre o que significava na época, fazer parte de uma equipe com atletas brancos: “Na pista você é Tommie Smith, o homem mais rápido do mundo, mas nos vestiários você não é nada mais do que um negro sujo.”

John_Carlos,_Tommie_Smith,_Peter_Norman_1968

De volta aos Estados Unidos, Smith e Carlos acabaram condenados ao ostracismo pelas autoridades que comandavam o atletismo americano. Com o decorrer dos anos, os dois foram saindo de párias para aquilo que são hoje – símbolos da luta pela igualdade dos direitos civis.

Menos sorte teve o australiano solidário. Norman passou a ser ignorado pelos chefes do atletismo australiano e, também, pela imprensa local. O racismo imperava na Austrália – onde os aborígines, os nativos, eram tratados como cidadãos de segunda classe. Sua carreira entrou em colapso e, com ela, sua vida pessoal. Norman logo teria problemas com bebidas. Jamais foi “perdoado” na Austrália. Um dos mais repulsivos sinais disso é que ele foi ignorado pelos organizadores das Olimpíadas de Sidney de 2000 – mesmo tendo sido um dos maiores corredores da história do país.

O que ele não perdeu jamais foi a amizade, a admiração e o reconhecimento dos dois amigos que fizera em 1968 no México. Os três nunca mais perderam o contato. No funeral de Norman, em 2006,  Tommie Smith e John Carlos estavam presentes – e carregaram o esquife do amigo que, contra todas as probabilidades, entrou para a história dos direitos civis dos negros americanos no que era para ser apenas mais uma competição esportiva.

Grandes momentos olímpicos - Os Panteras Negras Grandes momentos olímpicos - Os Panteras Negras Reviewed by Bento Santiago on agosto 07, 2016 Rating: 5
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