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Brasil na II Guerra Mundial: Os Soldados da Borracha

Soldados da Borracha é como ficaram conhecidos os cerca de sessenta mil brasileiros, a maioria deles oriunda do nordeste, que durante a Segunda Guerra Mundial foram recrutados e levados para a região amazônica para trabalhar nos seringais.  A borracha era enviada aos Estados Unidos para ser usada no esforço de guerra contra as forças do Eixo.

soldados_da_borrachaEm todas as regiões do Brasil, aliciadores tratavam de convencer os trabalhadores a se alistar como Soldados da Borracha e, assim, auxiliar a causa aliada.

De repente, em plena Segunda Guerra Mundial, os japoneses cortaram o fornecimento de borracha para os Estados Unidos. Como resultado, milhares de brasileiros foram enviados para os seringais amazônicos, em nome da luta contra o nazismo. Essa foi a Batalha da Borracha, um capítulo esquecido da história brasileira, mas bem vivo na memória dos últimos sobreviventes.

Logo após o ataque a Pearl Harbor em dezembro de 1941, os japoneses desembarcaram na Península Malaia, invadindo as colônias britânicas, francesas e holandesas e tomando o controle dos seringais asiáticos, que produziam 90% cento da borracha mundial. Sem as plantações da Malásia, as Nações Aliadas podiam contar com apenas pouco mais de 150 mil toneladas de borracha por ano.

No final de 1941, os países aliados viam o esforço de guerra consumir rapidamente seus estoques de matérias-primas estratégicas. E nenhum caso era mais alarmante do que o da borracha. A entrada do Japão no conflito determinou o bloqueio definitivo dos produtores asiáticos de borracha. Já no princípio de 1942, o Japão controlava mais de 97% das regiões produtoras do Pacífico, tornando crítica a disponibilidade do produto para a indústria bélica dos aliados.

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A maior parte das pessoas recrutadas era proveniente de estados do Nordeste brasileiro.

As atenções do governo americano se voltaram então para a Amazônia, grande reservatório natural de borracha, com cerca de 300 milhões de seringueiras prontas para a produção de 800 mil toneladas anuais de borracha, mais do que o dobro das necessidades americanas. Entretanto, naquela época, só havia na região cerca de 35 mil seringueiros em atividade, com uma produção de 16 mil a 17 mil toneladas na safra de 1940-1941. Seriam necessários, pelo menos mais 100 mil trabalhadores para reativar a produção amazônica e elevá-la ao nível de 70 mil toneladas anuais no menor espaço de tempo possível.

soldados_da_borracha_2Cerca de 60 mil Soldados da Borracha foram recrutados para trabalhar na extração de látex na Amazônia.

Para alcançar os seus objetivos, os americanos iniciaram uma intensa negociação com as autoridades brasileiras, que culminaram com a assinatura dos Acordos de Washington. Como resultado, ficou estabelecido que o governo americano passaria a investir maciçamente no financiamento da produção de borracha amazônica. Em contrapartida, caberia ao governo brasileiro o encaminhamento de grandes contingentes de trabalhadores para os seringais - decisão que passou a ser tratada como um heroico esforço de guerra.

Calcula-se que de todo o nordeste, 55 mil pessoas foram para a Amazônia, metade vindo a falecer devido aos precários meios de transporte, falta de assistência médica, alimentação escassa e pelas árduas condições de trabalho nos seringais.

soldados_da_borracha_3As condições de trabalho vitimaram mais da metade dos Soldados da Borracha que foram recrutados.

O Serviço de Mobilização de Trabalhadores para a Amazônia (SEMTA), fazia forte campanha publicitária, que tinha como finalidade principal o alistamento compulsório, treinamento e transporte de nordestinos para a extração da borracha na Amazônia. A Amazônia seria o “paraíso” para o homem nordestino, seu destino e triunfo na sagrada missão nacional de engrandecimento da Pátria.

Quando nenhuma das promessas e quimeras funcionava, restava o milenar recurso do recrutamento forçado de jovens. Para muitas famílias do sertão nordestino foram oferecidas somente duas opções: ou seus filhos partiam para os seringais como Soldados da Borracha ou então deveriam seguir para o front na Europa, para lutar contra os fascistas italianos e alemães. É fácil entender o porquê de muitos daqueles jovens terem preferido partir para a Amazônia.

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No SEMTA, depois de um superficial exame médico, o trabalhador recebia um chapéu, alpargatas, blusa branca e calça azul, uma caneca, um talher, um prato, rede e cigarros, com salário de meio dólar por dia. Logo eram embarcados para a Amazônia.

O trabalho era duro e a disciplina exigida também. Os seringueiros trabalhavam em dupla, enfrentando além da chuva constante, a malária, a febre-amarela, o beribéri e para completar o quadro dantesco, onças, jacarés e cobras gigantes que estavam sempre a espreita dos incautos.

O trabalho arrastava-se de 4 horas da manhã às 7 da noite. Era uma escravidão não oficializada. Outro meio nefasto que contribuía ainda mais para esfacelar as esperanças dos Soldados da Borracha era o famigerado sistema de aviamento, onde comida, roupas, ferramentas e remédios eram vendidos a preços exorbitantes, sendo estas lojas de provimentos mantidas pelos próprios patrões.

Numa caderneta eram anotadas os débitos dos funcionários, de tal forma  a fazer com que o empregado solicitante nunca saldasse o devido, cobrando até cinco vezes mais o valor da mercadoria. Enquanto que o valor da produção individual dos mesmos sempre vinha em inferioridade ao débito feito.

seringalistaOs soldados da borracha  cearenses eram chamados “arigós”, tal apelido vinha da pequena ave de arribação nordestina, que por característica vaga de lagoa a lagoa buscando alimento.

Mesmo com todos os problemas enfrentados pelos órgãos encarregados da Batalha da Borracha, cerca de 60 mil pessoas foram enviadas para os seringais amazônicos entre 1942 e 1945. Desse total, quase a metade acabou morrendo em razão das péssimas condições de transporte, alojamento e alimentação durante a viagem, pela absoluta falta de assistência médica, ou mesmo em função dos inúmeros problemas e conflitos enfrentados nos seringais.

A produção de borracha na Amazônia nesse período foi infinitamente menor do que o esperado. O que levou o governo americano, já a partir de 1944, a transferir muitas de suas atribuições para órgãos brasileiros. E tão logo a Segunda Guerra Mundial chegou ao fim, os Estados Unidos se apressaram em cancelar todos os acordos referentes à produção de borracha amazônica. O acesso às regiões produtoras do Sudeste Asiático se achava novamente aberto e o mercado internacional logo se normalizaria.

soldados_da_borracha_4A produção de látex recolhida era enviada aos Estados Unidos para suprir a necessidade de pneus e outros componentes do armamento dos exércitos aliados.

Terminava a Batalha da Borracha, mas não a guerra travada pelos seus soldados. Imersos na solidão de suas colocações no interior da floresta, muitos deles nem sequer foram avisados de que a guerra tinha terminado, e só viriam a descobrir isso anos depois.

Alguns voltaram para suas regiões de origem exatamente como haviam partido, sem um tostão no bolso, ou muito piores, alquebrados e sem saúde. Outros aproveitaram a oportunidade para criar raízes na floresta e ali construir suas vidas. Poucos, muito poucos, conseguiram tirar algum proveito econômico daquela batalha incompreensível, aparentemente sem armas, sem tiros e que produziu tantas vítimas.

soldados_da_borracha_5Terminada a Segunda Guerra Mundial, os Soldados da Borracha receberam do governo apenas o descaso, e do povo brasileiro, o esquecimento histórico.

Pelo menos uma coisa todos os Soldados da Borracha, sem exceção, receberam. O descaso do governo brasileiro, que os abandonou à própria sorte, apesar de todos os acordos e das promessas repetidas antes e durante a Batalha da Borracha.

A comparação entre os Pracinhas que foram lutar na Itália e os Soldados da Borracha é dramática: dos 20 mil brasileiros que lutaram na Itália, morreram somente 454 combatentes; dos quase 60 mil Soldados da Borracha, cerca da metade morreu durante a guerra.

Diferente dos Pracinhas, os Soldados da Borracha só foram reconhecidos como combatentes da Segunda Guerra Mundial em 1988, e apenas com este reconhecimento tiveram direito a uma pensão vitalícia no valor de dois salários mínimos, mas muitos deles encontraram-se inelegíveis porque não puderam fornecer os documentos necessários.

Em 2013, a PEC 346 da Câmara dos Deputados é encaminhada ao Senado Federal do Brasil e transformada em Emenda Constitucional. Em 2014, o Congresso Nacional aprovou a concessão de indenização no valor de vinte e cinco mil reais, parcela única, aos Soldados da Borracha sobreviventes e modifica a base de cálculo do reajuste da pensão vitalícia para seus dependentes, de um e meio para dois salários mínimos mensais.

Livro sugerido: O Exército Esquecido que salvou a Segunda Guerra Mundial

Fontes: Altino Machado | Suaveolens | Wikipédia | No Amazonas é Assim | Senado Federal


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